Da "Desdemonização" de Exú



(Imagem da Internet: Exú-do-Lodo)

A visão de diabo que estigmatiza Exú na Umbanda e no Candomblé advém da equivocada apreciação européia quando da colonização e escravização da Africa. Quando os europeus ali chegaram, associaram de imediato Exú ao diabo, desconsiderando o fato de que não havia essa figura na cultura africana. Para os africanos da época, quem escolhia fazer o bem ou o mal era o próprio homem, devido suas fraquezas, vaidades e livre-arbítrio.

Há que separar também Exú Orixá do Candomblé e Exú e Pombagiras entidades de Umbanda e Quimbanda.  A meu ver, as entidades da Umbanda herdaram algumas funções legadas ao Orixá, como a qualidade de mensageiros entre homens e Orixás e a responsabilidade pela segurança das casas e das pessoas. Mas são falangeiras de outros Orixás que não são o Orixá Exú, até porque ele não é cultuado na Umbanda. Nada impediria, mas da mesma forma que filhos de Orixás não-cultuados na Umbanda são “entregues” a outros Orixás que lhe “assumem” a coroa.

Exú Orixá atua como qualquer outro Orixá em relação a seus filhos e protegidos. Dá, mas se necessário, toma. Ele é considerado responsável pelas discussões e desavenças, desentendimentos, mas tudo promovido pelo próprio orgulho e vaidade das pessoas, pelas suas fraquezas, mesmo que isso ocorra entre amigos. Ele toma, mas se agradado corretamente, devolve. Ele pode entortar, mas se pedido com o devido respeito e dedicação, conserta. É um Orixá brincalhão, mas tudo dentro da sua seriedade de propósitos. Seu domínio é o mundo, pois domina as encruzilhadas por onde tudo passa, os portais, os caminhos. A sua natureza fálica, muitas vezes representada no Candomblé por falos ou mesmo estátuas com falos enormes, deve-se no meu entender à fertilidade, à fertilização que cria o progresso. No Candomblé, ele é sempre o primeiro a receber suas oferendas, pois é ele quem efetua  toda a comunicação e segurança necessárias aos trabalhos. Ele é o puro movimento.

Exú entidade são os Exús e Pombagiras que conhecemos na Umbanda, que baixam, conversam, dão consultas e que se adequam à doutrina de cada casa. Há casas onde aos Exús se permite usar roupas, adereços, bebidas variadas, elementos e atos que causam até temor nas pessoas que os “veneram”, como tridentes, facas, punhais, caveiras, capuzes, fogo, vela pingando cera, alfinetes sendo enfiados na pele, cigarros e charutos sendo apagados na língua, só para citar alguns. Assim como há casas onde Exú só se veste de branco, não bebe, não usa linguajar chulo, assume uma postura mais suave. Há oscilações entre estes dois extremos, claro.  Mas isso tudo depende da doutrina da casa e das entidades. Eles são entidades que devem ser doutrinadas, pois Exús podem servir para o bem e para o mal, sendo a responsabilidade de se desviar uma entidade para o mal da pessoa que o direciona para este lado. Independente desta linha ser conhecida pelos esteriótipos de marginais (em relação aos padrões morais da sociedade), eles estão no plano espiritual dispostos a trabalhar e a evoluir tanto quanto nós. Os objetivos são os mesmos. Portanto, seria muito pior a nossa postura (e karma) em arrastá-los (de volta) para as trevas. 

As imagens mais antigas representam Exús com rabos e chifres, sempre vermelhos. E há vários pontos cantados que fazem alusão ao diabo e às maldades que Exú pode fazer. Além de alguns terreiros fazerem oferendas de animais e despachá-las em lugares públicos, muitas vezes mal-ajambradas, o que causa certo pavor aos que não conhecem bem a Umbanda e associam o que vêem a maldade e magia negra. Todos esse fatores aliados à falta de doutrina e de esclarecimento de médiuns e de terreiros contribuem para a demonização de Exú.

Cabe a nós, médiuns esclarecidos, fazer a nossa parte e auxiliar as nossas entidades a caminhar sempre na luz. Na luz da verdade. E não contribuir para aumentar ainda mais essa visão grosseira e prejudicial a uma entidade de tão grande valia e tão bonita do nosso panteão religioso.

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